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quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Constantino

Constantino Que fez?
Já falei bastante dos aspectos negativos do híbrido constantiniano. Mas seria um erro pensar que não houve aspectos proveitosos também. A Igreja nunca teria mordido a isca se tudo tivesse sido mau. Portanto, vamos dar uma olhada em alguns destes aspectos benéficos.
A mudança visível e mais imediata que o novo híbrido trouxe consigo foi a legalização do cristianismo. O Estado favoreceu o cristianismo e isentou a propriedade da Igreja do pagamento de impostos. Além disto, Constantino fez do domingo um dia feriado, facilitando a população assistir à adoração nos dias de domingo. Ele também declarou ilegal todas as práticas ocultas.1
O rápido auge do cristianismo, particularmente na esfera pública, esteve acompanhado pela rápida decadência e o extermínio final do paganismo clássico. Apesar de Constantino tolerar a adoração pagã e declarar a liberdade de adoração para todos (exceto para os hereges), proibiu que os servidores públicos do Estado fizessem oferendas pagãs em nome do Estado. Ele também retirou os fundos para a construção de templos pagões, e converteu alguns templos em igrejas.
No âmbito social, Constantino promulgou uma lei que oferecia ajuda financeira pública às famílias pobres, para que estas não seguissem a prática comum de abandonar os infantes não desejados para que morressem. Ele proibiu os cruéis combates dos gladiadores em muitas cidades, fechou os teatros lascivos e declarou ilegal a prostituição. Constantino também proibiu o concubinato, puniu o adultério e fez com que o divórcio fosse mais difícil de obter.2

O lado escuro do híbrido

Acho que Constantino verdadeiramente queria melhorar a sociedade romana e proibir as coisas que eram ofensivas a Deus. No entanto, ele não era um cristão nascido de novo. Ele era um homem “deste mundo”. Portanto, a única maneira que conhecia para conseguir seus objetivos era por meio dos métodos do mundo, os quais com freqüência se tornaram cruéis e brutais. Por exemplo, Constantino fez que o assédio sexual e a sedução se convertessem em delitos bem mais graves do que eram antes. Isso foi bom. Mas as penas que impôs a estes delitos foram horríveis: queimar viva à pessoa acusada, fazer com que as feras selvagens a despedaçassem no anfiteatro, ou derramar chumbo fundido em sua garganta.3
Além disso, Constantino e seus servidores públicos continuaram praticando rotineiramente as torturas, tal como seus predecessores pagões faziam. Na verdade, com o passar dos anos, Constantino se degenerou num governante cruel e autocrático que torrou os fundos públicos como um marinheiro embriagado. Para pagar seus muitos gastos, Constantino sobrecarregou o povo com alguns dos impostos mais altos que o Império jamais havia experimentado.4

A cobiça pelo poder

Como já comentamos, Jesus nos disse que temos que renunciar a tudo. Temos que renunciar a todas as correntes que nos mantém atados à terra. Temos que renunciar a todas as posses que nos fazem estar ansiosos, a todo tesouro pelo qual nossos corações possam sentir afeto. E o poder terrestre é uma posse tal qual o ouro e a prata. Este é tão embriagante como as riquezas, para não dizer que é mais. Uma vez que as pessoas bebem seu primeiro gole de poder, em geral desejam mais. Logo, logo, estão dispostas a fazer praticamente qualquer coisa para manterem o poder que possuem. Não só isso: se possível, procuram aumentar o seu poder. Essa é uma das razões que explica por que os cristões dos primeiros três séculos exigiam dos altos servidores públicos do governo que renunciassem a seus cargos se desejassem se converter em cristões.
Constantino amava o poder terrestre e foi cruel em seu desejo de proteger seu poder. Por exemplo, ele instituiu um sistema de espiões através de todo o Império para que o mantivessem a par de qualquer crítica, qualquer possível adversário e de qualquer preparativo para uma rebelião. Se seus espiões acusassem alguém de traição a Constantino, as autoridades tomavam o acusado e o levavam à força a Milão ou Constantinopla para responder às acusações. Se não havia suficiente evidência contra o acusado, os carcereiros o torturavam até que confessasse seu “crime”. O fato de que o acusado fora cristão não mudava em nada a situação.
Como já mencionei, Constantino e seu cunhado Licínio tinham proclamado em conjunto o edito de Milão no ano 313. Constantino governava o Império Romano Ocidental e Licínio governava o Oriental. Mas Constantino realmente não desejava um Império dividido. Sua ambição era governar todo o Império Romano. E Constantino temia que Licínio pudesse ter a mesma ambição.
Portanto, no ano 324, Constantino invadiu o território governado por Licínio. Constantino justificou isto ante a Igreja alegando que Licínio tinha começado a perseguir os cristões novamente.5 Diferentemente de todas as guerras romanas anteriores, nesta guerra contra Licínio os soldados cristões participaram da própria matança. Constantino pediu aos bispos da Igreja primitiva que acompanhassem o seu exército e orassem por eles durante a batalha. Também mandou que se construísse uma cruz enorme como um estandarte de guerra, a qual seus soldados carregaram como um talismã que garantiria a vitória.6
Finalmente, as tropas de Constantino foram vitoriosas e Constantino levou Licínio como prisioneiro. Agora ele era o único governante do Império Romano. E proclamou que fora Deus que tinha feito ser assim:
Sem dúvida, não se pode considerar arrogância em alguém que tenha recebido benefícios de Deus, ser reconhecido nos termos mais sublimes de louvor. Eu mesmo, pois, fui o instrumento cujos serviços ele escolheu. Fui eu quem ele considerou apto para cumprir a sua vontade. (…) Por meio da ajuda do poder divino, eu eliminei e tirei completamente toda forma de maldade que prevalecia. Isto foi feito na esperança de que a raça humana, a qual fora iluminada por meio de meus esforços, fosse restituída ao devido cumprimento das santas leis de Deus. E também para que nossa mais bendita fé pudesse prosperar sob a direção de sua mão todo-poderosa.7
Após sua vitória sobre Licínio, Constantino fez uma promessa solene a sua irmã, Constância, a esposa de Licínio. Prometeu-lhe que permitiria a Licínio passar o resto de sua vida em paz e tranqüilidade. Ele inclusive confirmou esta promessa com um juramento. No entanto, em menos de um mês, Constantino mandou executar Licínio.8 Ele não podia permitir viver a nenhum adversário potencial.
No entanto, já tinha adversários potenciais em todas as partes. De maneira que Constantino não se deteve com Licínio. Muito cedo, Constantino assassinou o seu próprio filho, Crispo. Posteriormente, assassinou a um sobrinho que em sua opinião poderia desejar seu trono. Tudo indica que Constantino inclusive assassinou a sua segunda esposa, Fausta, temendo que ela pudesse estar conspirando.9 Todavia, a Igreja primitiva fez vista grossa e evitou condenar a Constantino, ou mesmo repreendê-lo, por qualquer um destes assassinatos.
Em seu leito de morte, Constantino legou o Império Romano a seus três filhos (Constâncio, Constante e Constantino II) e a seus dois sobrinhos mais velhos. Os cinco eram cristões. Roma continuaria sendo um império cristão! No entanto, esses cinco homens, sem exceção, compartilhavam a ambição de Constantino pelo poder. De maneira que pouco tempo após ter morrido Constantino, seu filho Constâncio assassinou os dois sobrinhos que também tinham de ser dirigentes, e massacrou praticamente a todos os varões de ambas as partes de sua família.
Com os dois sobrinhos fora de seu caminho, os três filhos de Constantino dividiram o Império entre si. Sem dúvida, agora poderia haver paz, já que estes homens eram irmões de sangue e cristões! Mas o novo cristianismo não se comportou de jeito nenhum como o autêntico cristianismo primitivo do reino. Nenhum dos três irmões estava satisfeito em ter só a terceira parte do Império. Pouco depois, Constantino II invadiu Itália para se apoderar da parte do Império que tinha sido dada a seu irmão Constante. No entanto, Constantino II morreu na tentativa. Esta situação deixou somente dois governantes dos cinco que havia originalmente. Constante governou o Império Romano Ocidental e Constâncio governou o Oriental.
Mas nem mesmo esta simples divisão de poder durou muito tempo. Logo, um general chamado Magnêncio derrotou Constante e apoderou-se do Império Ocidental. Porém, ele não ficou satisfeito em somente possuir o Império Ocidental. Desejando dominar todo o Império, ele e seus exércitos atacaram a Constâncio, o único filho sobrevivente de Constantino. Desta vez, Magnêncio foi derrotado e fugiu para a Gália. Isto deixou Constâncio como o único imperador.10
Mas, onde estava a era de ouro que supunham que o cristianismo primitivo traria ao Império? Houve mais guerras civis nos primeiros cinqüenta anos do novo Império Romano “cristão” do que nos primeiros duzentos anos do Império Romano pagão. Os primeiros imperadores pagões tinham trazido duzentos anos de estabilidade, prosperidade e paz, a Pax Romana. Os primeiros imperadores cristões trouxeram um período de guerras civis intermináveis, impostos sufocantes e a rápida decadência do Império.

Valentiniano

Após a morte de Constâncio, um sobrinho de Constantino chamado Juliano converteu-se no novo Imperador. Juliano foi um dos poucos membros de sua família que conseguiu escapar do massacre levado a cabo por Constâncio, o filho de Constantino. Ele tinha visto suficiente do “cristianismo” em ação e não queria ter nada a ver com ele. De maneira que, embora tolerasse os primeiros cristãos , Juliano procurou reviver o paganismo clássico no Império. Mas seus esforços fracassaram.
Um ano após a morte de Juliano, um cristão “fiel” da Igreja chamado Valentiniano foi proclamado como o novo imperador. Como cristão católico, Valentiniano viveu uma vida casta, e promoveu muitas leis louváveis. Por exemplo, ele estabeleceu um médico público em cada um dos catorze distritos de Roma para que cuidasse dos pobres. Ele permitiu a liberdade de religião para os pagões, os judeus e os primeiros cristãos de todos os credos.11 A vida sob o governo de Valentiniano deve ter sido a era de ouro que os primeiros cristãos estavam esperando. No entanto, não foi assim.
Tal como os imperadores cristões que lhe precederam, Valentiniano nunca viveu um só dia sem o temor de que alguém lhe desse um golpe e lhe arrebatasse seu precioso trono. Portanto, igual a Constantino, ele fez uso de espiões para tentar detectar qualquer deslealdade, particularmente daqueles que podiam se converter em adversários potenciais. Valentiniano media a eficácia de seus governadores e magistrados de acordo com a quantidade de execuções que estes levassem a cabo em seus tribunais. Os espiões e os inimigos políticos com freqüência apresentavam acusações infundadas inclusive contra cidadãos respeitáveis. As confissões que se obtinham por meio das torturas cruéis eram consideradas como evidência sólida contra os acusados. Muitas famílias ricas ficaram empobrecidas e centenas de senadores, chefes e filósofos padeceram mortes vergonhosas em masmorras úmidas e câmaras de tortura.12
cidadãos inocentes em todas as partes viviam atemorizados de que alguém por qualquer razão os acusasse de traição. Valentiniano adotou a posição de que a suspeita equivalia à prova quando se tratasse de traição ao seu governo.13 A ofensa mais mínima ou imaginária poderia resultar na amputação da língua de um cidadão, ou em ser lançado vivo na fogueira. Um historiador fez a observação de que as palavras que Valentiniano mais usou foram: “decapitem-no”, “queimem-no vivo” e “golpeiem-no com porretes até que morra”.14 Ele podia observar calmamente os cidadãos torturados se retorcerem em agonia e não sentir absolutamente nenhuma compaixão por eles. Também não achava que isto de alguma maneira violasse suas crenças cristãs.15
Finalmente, o próprio gênio descontrolado de Valentiniano veio a ser sua ruína. Um de seus servidores públicos tinha convidado um rei bárbaro a um banquete, mas depois, de forma traiçoeira o assassinou no mesmo banquete. Em resposta a este ato, a tribo bárbara do rei assassinado fez represálias contra os romanos, saqueando várias províncias romanas.
Em lugar de se desculpar pelo assassinato e procurar reconciliação, Valentiniano dirigiu a seus exércitos romanos contra os bárbaros e obteve uma vingança sangrenta. Quando os embaixadores dos bárbaros vieram à tenda de campanha de Valentiniano para pedir clemência, Valentiniano se enfureceu tanto com eles que seu rosto ficou quase da cor de púrpura. Valentiniano gritou aos mensageiros até não poder mais. No entanto, devido a sua fúria, um vaso sangüíneo de seu cérebro rompeu-se e morreu instantaneamente.16

A queda de Roma

Um dos mitos históricos mais duradouros é o de que Roma caiu por ter mergulhado em vícios pagões, em orgias freqüentes e em entretenimentos sanguinários. Li muitos escritores cristões que aponta Roma como uma lição do que acontecerá aos Estados Unidos se não restabelecer a moralidade bíblica.
No entanto, Roma não caiu quando foi governada pelos pagões. Quando Roma caiu, as lutas de gladiadores tinham sido declaradas ilegais e uma rígida moralidade do Antigo Testamento tinha sido imposta sobre a população. Além do mais, quase toda a população estava composta por cristões.17
E diante de quem sucumbiu Roma? A representação popular nos dá a imagem de hordas de bárbaros selvagens, seminus e adoradores de Thor, subindo os muros de Roma em massa e massacrando a todos os que se encontravam na sua frente. Mas isto também é um mito. Os povos germânicos que conquistaram Roma não eram selvagens nem incivilizados. Eram meio romanos em sua cultura, e muitos deles tinham sido aliados e até protetores do Império. E mais, eles também eram cristões professo.18
A era de ouro que era para florescer nesta etapa nunca se realizou. Temos que admitir que o Império Romano já se encontrava em decadência quando os cristões o herdaram. Contudo, os cristões não demonstraram ser melhores dirigentes que seus predecessores pagões. Em lugar de resolverem os problemas, os imperadores cristões só os pioraram. Seus impostos sufocantes e suas intermináveis lutas internas aceleraram a decadência que tinha começado sob os imperadores pagões do século III, até que finalmente caiu todo o Império Ocidental.
Em essência, os cristões do início do século IV trocaram o reino de Deus pelo reino deste mundo. Isto merece figurar como um dos piores negócios de todos os tempos, junto com a troca que Esaú fez de sua primogenitura por um pouco de guisado. Mas ao menos Esaú comeu o guisado. Os primeiros cristãos não só perderam o reino de Deus, mas também o Império Romano.
Os acontecimentos que ocorreram desde a ascensão ao trono de Constantino no ano 312 até a derrubada do último imperador do Império Ocidental no ano 476 deviam ter dado aos cristões muito em que pensar. Os imperadores romanos pagões eram vitoriosos na maioria de suas guerras, mas o mesmo não acontecia com os imperadores cristões. Cristo é o Príncipe da paz. Nesse caso, por que puderam os imperadores pagões, inclusive os malvados como Calígula e Nero, manter a Pax Romana e os imperadores cristões não puderam? Por que o Império não tinha somente sobrevivido, mas também florescido sob os imperadores pagões do primeiro e segundo séculos, enquanto que caiu sob os governantes cristões do quarto e quinto séculos?
Já pelo ano 476, devia ter sido óbvio que o híbrido constantiniano não era de Deus.

O modelo do híbrido

Mas a queda de Roma não levou à Igreja ao arrependimento. Também não levou o híbrido constantiniano ao seu fim. Na realidade, a Igreja primitiva se converteu na instituição dominante da Idade Média. O modelo social do híbrido continuou através do período medieval: os pecados sexuais, a feitiçaria, o aborto e os entretenimentos lascivos foram condenados (ainda que, no tocante à imoralidade sexual, a nobreza não se ajustou aos mesmos parâmetros). A acumulação de riquezas, a prestação de juramentos e a matança na guerra foram consideradas aceitáveis. Esse foi o modelo nos tempos de Constantino, esse foi o modelo durante a Idade Média… e esse tem sido o modelo na maioria dos governos “cristãs” até nossos dias.