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quarta-feira, 20 de maio de 2015

Ser ou não Ser

Desde os primórdios, a felicidade tem sido uma das questões cruciais da humanidade. O filósofo Sêneca, nos primeiros anos após cristo, já refletia sobre as razões da angústia e das formas de se buscar a serenidade e o equilíbrio
Por Davi de Sousa Barbosa* e Sandra Olades Martins Venturelli**

A grande questão humana ainda é a felicidade. É possível encontrar a felicidade ou ser feliz é apenas uma ilusão? Conseguimos proceder com equilíbrio e harmonia quando existem diversas causas da infelicidade, como a dor e o sofrimento? Em Roma, o filósofo Sêneca já refletia sobre os infortúnios de nossa existência e os associava à crise de valores morais e ao conflito gerado por uma civilização que permitia os excessos no campo do prazer e do exercício do poder.
Lucio Aneu Sêneca nasceu em Córdoba (Espanha) por volta do ano 4 a.C e morreu em Roma (Itália) no ano 65 d.C. Sua filosofia mergulhada na doutrina estoica - fundada por Cleanto, Crisipo e principalmente Zenão de Cítio no final da civilização helênica - traz forte reflexão acerca da sociedade de sua época, que sofria constantes transformações políticas e sociais. A instabilidade política afetou muito a vida de Sêneca. Ainda que tenha sido um sábio senador romano, sofreu diversas calúnias e foi exilado em Córsega pelo Imperador Cláudio César após uma perseguição política. Quando retornou a Roma, tornou-se professor e depois conselheiro do Imperador Nero , que desde cedo mostrava os sinais de uma mente perturbada. Abandonou a carreira política em 62 d.C., três anos depois, Nero o condena ao suicídio; aceitou a morte injusta, colocando em prática o princípio estoico da ataraxia (imperturbabilidade).
O pensamento de Sêneca tem relevância não apenas para o homem do seu tempo, mas também para o homem contemporâneo que necessita de uma reflexão maior acerca de sua vida e de suas ocupações. Em resposta a uma correspondência recebida de seu amigo Sereno, um epicurista que buscava conselhos acerca de como bem viver e de como moderar seus impulsos, Sêneca o responde criando uma obra de extrema beleza intitulada Da Tranquilidade da Alma. A atualidade de tal obra permite o diálogo com o homem contemporâneo, que precisa encontrar-se consigo mesmo e reconhecer os valores da alma, como a tranquilidade e a paz.

FATORES DE INTRANQUILIDADE
Para Sêneca são inúmeras as variedades de males que podem tirar a tranquilidade e a paz da alma - os valores superficiais, o desassossego, a ira -, sendo que todas estas inquietações levam ao mesmo resultado, o descontentamento consigo mesmo. O homem sofre não por ter desejado o mal, mas por perceber que este mal não o levou a lugar algum; insensatos, procuram se ocupar de desejos vãos que não os levam a outro lugar senão à infelicidade. O ponto que Sêneca tenta mostrar para Sereno é que é preciso fazer a alma sorrir para si mesma, livrando-se de qualquer instabilidade que pode ser causada pelas exigências da sociedade ou da política.
O trabalho excessivo com o fim de manter a moda e o padrão de vida imposto pela sociedade contemporânea faz do homem uma máquina, assim, quanto mais se trabalha para ganhar dinheiro, mais falsas necessidades vão surgindo. Aqui reside um problema para o homem produtivo: o desejo de alcançar padrões de vida mais elevados o lança num mar de ambições irrealizáveis que o levará ao trabalho compulsivo. Possuir uma desmedida paixão pelo supérfluo e colocar sua felicidade em algo que está externo à sua alma somente multiplica no indivíduo uma série de preocupações desnecessárias.
O trabalho é importante e edifica o homem na medida que ele não se torna escravo de seu próprio ofício. Desejar coisas boas da vida, como o dinheiro, a saúde, ou outros bens é permitido, os prazeres podem ser acessórios para a alma e para a felicidade, só não podem ser causa de sofrimento quando se não os obtém. A maioria das pessoas parece desperdiçar os seus dias em trabalhos exaustivos procurando acumular bens para assim manter sua vida conforme a moda e os desejos supérfluos que a própria sociedade impõe; tal comportamento é que impede a tranquilidade e harmonia da alma. A alma equilibrada sabe o justo valor das coisas do mundo.
São vendidas marcas que dizem trazer um prazer duradouro e uma felicidade sem fim, quando na verdade trata-se de um mercado voraz que nos engana, promete até mesmo uma juventude eterna, transformando todos em figura externa padronizada. Sêneca nos adverte que o luxo e a riqueza trazem preocupações desnecessárias ao homem e o atormenta: "Aprendamos a andar com as nossas próprias pernas, a regular nosso vestuário e nossa alimentação, não sobre a moda do dia, mas sobre o exemplo dos antigos. Aprendamos a cultivar em nós a sobriedade e a moderar nosso amor ao fausto; a reprimir nossa vaidade, a dominar nossas cóleras, a considerar a pobreza com um olhar calmo, a considerar a frugalidade, apesar de todos aqueles que acharão aviltante satisfazer tão modestamente a seus desejos naturais, a não ter nas mãos, por assim dizer, as ambições desenfreadas de uma alma sempre inclinada para o dia seguinte e a esperar a riqueza menos da sorte do que de nós mesmos" (Sêneca, 1973, p. 215).

Algumas formas de vida podem chegar ao extremo de querer possuir o outro como um bem capaz de trazer felicidade, assim, o outro deixa de ser o desdobramento do eu e se torna um mero objeto que se deve sujeitar aos desejos e prazeres individuais. Ou seja, o prazer da gula ou da luxúria não está ligado à felicidade, trata-se de um prazer momentâneo cuja realização acaba na frustração consigo mesmo e com a sociedade, pois o indivíduo nem sempre percebe que o amor, o dinheiro e a saúde não são fórmulas para a felicidade.